literatura

Roleta-russa: uma viagem literária

Não sei dizer exatamente como ou quando meu interesse pela história e cultura russa começou.

Uma pulga pulou na minha orelha quando comentaram comigo sobre o Vkhutemas (acrônimo em russo para Escola Superior de Arte e Técnica), contemporânea da Bauhaus e berço de vanguardas artísticas como o suprematismo e o construtivismo. Os professores eram alguns dos artistas e arquitetos mais renomados da época, como Rodchenko, El Lissitzky, Kandinsky, Tatlin e Malevich.

Rodchenko

Alexander Rodchenko: “Livros”, 1924. Cartaz para o departamento estatal da imprensa de Leningrado (Utilizando a foto de Lilya Brik)

O que mais me chamou a atenção no Vkhutemas foi o fato de que, mesmo tendo estudado História da Arte e História do Design na faculdade, nunca tinha sequer ouvido falar disso. Ao procurar sobre o assunto na internet, achei pouquíssimas referências, tanto em português quanto em inglês.

Era o primeiro sinal de que talvez existam coisas fabulosas sobre a Russia das quais a cortina de ferro e as sequelas da guerra fria nos privaram de conhecer.


Fiódor Dostóievski é um dos autores clássicos mais conhecidos no mundo, assim como Lev Tolstoi. Como nada se cria no vácuo, certamente algo além de vodka deve ter acontecido para que gênios desse calibre pudessem surgir.

Conheço pouco da literatura Russa. Cheguei a ler “Crime e Castigo” quando era mais novo. Mas como quase tudo em minha adolescência, foi uma leitura desatenta e sem muito interesse.

Por isso surgiu a ideia deste projeto: explorar a literatura russa para além do óbvio e ler autores pouco conhecidos.

“A literatura russa do século XIX teve que desempenhar várias funções, além da literária propriamente dita: era jornalismo num país em que não existia imprensa livre; era tribuna política num país em que não havia parlamento. Todas essas funções foram desempenhadas por homens de cultura que, excluídos da vida pública, fizeram oposição sistemática, divulgando suas ideias em obras de ficção e de poesia, burlando a censura, reivindicando reformas e preparando revoluções.”

— Otto Maria Carpeaux


Fiz uma pesquisa básica e listei os principais escritores e poetas russos em ordem cronológica de nascimento. No total são 24 autores na seguinte ordenação:

1799 - Aleksander Púchkin
1809 - Nikolai Gógol
1818 - Ivan Turguêniev
1821 - Fiodor Dostoiévski
1828 - Lev Tolstoi
1831 - Nikolai Leskov
1860 - Anton Tchekhov
1868 - Maxim Górki
1870 - Ivan Bunin
1887 - Sigismund Kryzanowski
1888 - Anton Makarenko
1890 - Boris Pasternak
1891 - Ossip Mandelstam
1891 - Mikhail Bulgákov
1893 - Vladimir Maiakóvski
1894 - Isac Babel
1899 - Vladimir Nabokov
1905 - Mikhail Sholokov
1907 - Varlam Chalámov
1918 - Alexander Soljenítsin
1940 - Joseph Brodsky
1948 - Svetlana Alexiévitch
1955 - Vladimir Sorokin
1962 - Victor Pelevin

Para organizar a ordem de leitura e também para deixar o projeto mais dinâmico, pensei em fazer o que apelidei carinhosamente de “roleta russa”. Ou seja, empreender uma sequência de leitura que começa com Púchkin e vai passando de autor em autor até chegar a Sorokin. E assim repetidamente até que as obras restantes (ou meu interesse) se esgotem.

Além da ordenação dos autores, eu também poderia fazer uma ordenação das obras pela data de publicação. Porém, como não tenho nenhum compromisso formal em ler todas as obras de todos os autores, e como não tenho muito saco para leituras maçantes, prefiro comer a sobremesa antes do almoço, ou seja, ler primeiro as obras primas de cada autor.

Sobre edições e traduções

Boris Schnaiderman

O tradutor Boris Schnaiderman com quase 100 anos de idade, em sua casa em São Paulo.

Logo quando comecei a organizar este projeto surgiu a primeira barreira. Notei que existem pouquíssimas edições e traduções do russo para português (e até mesmo para inglês). É notável o esforço da Editora 34 e sua Coleção Leste em traduzir com qualidade e difundir os autores do alfabeto cirílico (entre outros do leste europeu).

Também são notáveis a dedicação e habilidade de caras como Boris Schnaiderman e Paulo Bezerra que fizeram com que as traduções disponíveis fossem tão fluídas que você esquece que aquilo foi escrito originalmente em outra língua.

Dito isso, a escolha das obras de cada autor é limitada pela disponibilidade de boas traduções diretamente do russo para português.

Cronograma

A ideia aqui não é criar algo que soe como uma obrigação, portanto o cronograma de leitura não é tão importante assim. Mas, considerando que quero (e preciso) ler outras coisas além de literatura russa, imagino que a velocidade de leitura do projeto seja de 1 a 2 livros por mês. Sendo assim, cada rodada de autores levaria de 1 a 2 anos.


Vou compartilhar minhas impressões e comentários em publicações aqui no Medium. A ideia é fazer menos uma resenha de cada livro e mais um diário de ideias, comentários e associações a partir da leitura das obras. Assim evito dar spoilers e mesmo quem não leu — e também quem não pretende ler — pode se beneficiar das reflexões.

Seria muito legal se mais pessoas participassem deste projeto. Assim poderíamos trocar percepções e ideias a respeito de cada leitura.

Para quem se interessar, a ordem de leitura da primeira rodada é:

  1. Aleksander Púchkin: A dama de espadas
  2. Nikolai Gógol: O capote e outras histórias
  3. Ivan Turguêniev: Pais e Filhos
  4. Fiódor Dostoiévski: Os Irmãos Karamázov
  5. Lev Tolstói: A morte de Ivan Ilitch
  6. Nikolai Leskov: Homens interessantes e outras histórias
  7. Anton Tchekhov: A dama do cachorrinho
  8. Maksim Górki: Meu companheiro de estrada e outros contos
  9. Ivan Búnin: O amor de Mítia
  10. Sigismund Kryzanowski: O marcador de página
  11. Anton Makarenko: Poema pedagógico
  12. Boris Pasternak: Doutor Jivago
  13. Ossip Mandelstam: O rumor do tempo
  14. Mikhail Bulgákov: O Mestre e Margarida
  15. Vladimir Maiakovski: Mistério-bufo
  16. Isac Babel: O exército de cavalaria
  17. Vladimir Nabokov: Lolita
  18. Mikhail Sholokov: O Don Silencioso
  19. Varlam Chalámov: Contos de Kolimá
  20. Alexander Soljenítsin: Arquipélago Gulag
  21. Joseph Brodsky: Marca d’agua
  22. Svetlana Alexiévitch: Vozes de Tchernóbil
  23. Vladimir Sorokin: Dostoiévski-trip
  24. Victor Pelevin: O Elmo do Horror

A princípio, pode parecer que esta configuração descrita seja rígida e inflexível. Porém, a estrutura proposta serve apenas como um fio-condutor do desejo de explorar a literatura russa.

A leitura voluntária deve ser uma atividade, acima de tudo, prazerosa.

Você pode acompanhar o andamento deste projeto me seguindo aqui no Medium. Também pode dar uma olhada no meu perfil do Goodreads, se quiser.

E assim, declaro iniciada essa jornada.
поехали!


Notas úteis

  1. Não tenho um maior apreço pela literatura russa do que por qualquer outra — como a brasileira, portuguesa, nigeriana ou turca (só para citar algumas). Meu interesse pelo tema é motivado tanto pela pura curiosidade quanto pela total arbitrariedade.
  2. Como algumas pessoas sabem, a expressão “roleta-russa” na Rússia diz-se apenas “roleta”.